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Testemunho: Júnior Gongra, nos conta sua história e fala sobre sua condição de musicista surdo.

"...Nasci, com uma deficiência auditiva severa... E perguntavam como eu conseguia tirar músicas de ouvido, sem ter ouvido a nota?!"

Nasci, há 42 anos atrás, com uma deficiência auditiva severa, sendo surdo de um lado e com apenas 40% de audição no outro ouvido.

Uma das coisas mais marcantes da minha infância, é que aos 12 anos eu ia ao cinema com os amigos e meus irmãos aos lançamentos de Os Trapalhões durante as as férias. Não compreendia nada do que se falava.

Nos anos 80, em idade escolar, frequentava uma escola normal, não aquelas indicadas para deficientes auditivos. Meu pai achava melhor. Na sala de aula, sentava nas primeiras carteiras mas ainda assim não compreendia o que o professor falava quando ele caminhava pelo corredor e eu não podia ler seus lábios e escrevia o que eu achava. Quase reprovei nessa época, não fosse um trabalho de recuperação valendo 10 que a diretora me deu, comovida pela minha situação.

Evitava usar os aparelhos auditivos da época, por medo do preconceito e, sem ele, não conseguia fazer os exercícios dos ditados e nem participar sem graves erros das atividades de "telefone sem fio". Eu buscava interagir com os colegas nessa atividade e passava uma palavra qualquer para meu vizinho, movido pelo desespero de sofrer preconceito ou bulling. Foi bastante difícil e cheio de apuros em conviver com as crianças que não aceitavam meu aparelho auditivo nada discreto na época. Porém, graças a esses desafios, desenvolvi uma maior concentração e atenção e tive uma infância normal.


A minha história com a música começou na década de 90 quando fui com meus pais no aniversário de um amigo deles e pude ouvir, maravilhado, ao som do piano!


Até hoje, quando ouço um piano bem tocado, não só ouço como "vejo" o som! Aquilo me encantou de tal forma que me fez ter certeza de que eu queria me envolver com música.

Por não termos condições de ter um teclado, meu primeiro instrumento foi o violão. Desde que comecei a aprender música, meus pais sempre me incentivaram muito a tocar na igreja. Meus pais são espiritualistas. Nós fomos educados sob princípios muito sólidos sobre questões religiosas e espirituais. Por isso, desde cedo, a busca pelo conhecimento e pela Verdade sempre fizeram parte de meus dias. Comecei tocando violão nas missas numa católica. Um tempo depois, fui convidado pra ser organista da Catedral Metropolitana de Campinas, onde fiquei por 10 anos.

Mas, em 92, onde eu estudava, começou a ter aulas de piano e teclado com um padre que era um dos diretores da escola e, imediatamente, eu comecei a ter aulas com ele. Aproveitei os formulários contínuos que meu pai usava, para desenhar grandes teclas onde eu treinava no teclado de papel, sem ouvir nada, mas imaginando o som.


Quando você imagina alguma coisas, sua mente não consegue separar o real do imaginário. Seu cérebro não distingue se você está ouvindo ou produzindo aquele som.


Em meados de 2002 conheci minha esposa e começamos a namorar. Na época frequenta a a igreja dela. Me impressionava a simplicidade e força do evangelho. Mas o que me atraia mesmo era a música gospel, com toda sua força, arranjos vigorosos e letras impactantes. Um belo dia, em setembro de 2002, num culto, simplesmente decidi receber a boa nova do evangelho! De lá pra cá, o evangelho sempre me impacta e me transforma a cada dia.

Então, quando ganhei o primeiro teclado, logo comecei a tirar música de ouvido! E perguntavam como eu conseguia tirar músicas de ouvido, sem ter ouvido a nota?! Mas, o som do teclado e do piano para mim para mim, parecem ter uma forma, talvez por um esforço do cérebro em interpretar aquele som que mexe comigo. De alguma forma aconteceu isso e comecei a estudar música desde então.

Nas orquestras e casamentos em que toco, preciso ler as partituras e tocar o que está escrito, sem ouvir, sem errar. Estudo as frequências das notas, ora trazendo do teclado para o piano, e memorizando a frequência dela para tocar corretamente.

Em 98, quando ganhei um novo aparelho, pude desfrutar de mais clareza nos sons, Ouvia até o barulho do papel, um pouco a mais até mesmo, o que me fez abandoná-lo após 5 anos de uso e, depois dele, fiquei mais de 20 anos sem usar nenhum aparelho, desde a adolescência. Sempre ajustava o som da TV para observar os músicos e cheguei a